Me escolho
Cansei de procurar mapas
para labirintos que não eram meus.
Cansei de recolher os cacos
das tempestades alheias
enquanto escondia, nos bolsos do peito,
os estilhaços dos meus próprios dias.
Cansei de ser a ponte
para quem nunca quis aprender a atravessar.
De ser abrigo
para quem fazia do meu silêncio morada
e da minha compreensão, obrigação.
Cansei de ser a que escuta,
a que entende,
a que cede,
a que respira fundo,
a que sempre encontra justificativas
para a falta de cuidado dos outros.
Há um cansaço que não faz barulho,
mas muda o rumo das marés.
Então, se agora me chamarem de fria,
egoísta, difícil, vilã,
que chamem.
Nem toda mulher que para de se sacrificar
se transforma em monstro;
às vezes, ela apenas se torna fronteira.
Não desejo o mal de ninguém.
Só não quero mais carregar, sozinha,
o peso de salvar o mundo inteiro.
Cada um que aprenda a cuidar
das próprias ruínas,
das próprias escolhas,
dos incêndios que acendeu.
Eu, pela primeira vez em muito tempo,
escolho a delicadeza de voltar para casa,
para dentro de mim.
E que a minha paz,
essa paz tão adiada,
não precise mais pedir desculpas
por existir.
Se para encontrá-la
eu precisar ocupar o papel de vilã
na história de quem só me amava disponível,
que seja.
Há batalhas que não são nossas.
Há dores que não nos pertencem.
E há um tipo de amor-próprio
que começa exatamente assim,
quando deixamos de estender as mãos
para quem nunca deixou de apontar o dedo,
e passamos, enfim,
a segurar a nossa própria vida
com a ternura que sempre oferecemos ao mundo.
Que cada um se salve como puder.
Eu já passei tempo demais
me afogando para ensinar os outros a nadar.
Agora, escolho a minha santa paz.