O Dia em Que a Coragem Me Acompanhou
Tem dias que a gente só quer voltar pra casa. E eu tinha 15 anos, era uma menina com medo de tudo, mas também com um senso de sobrevivência que a vida me ensinou cedo demais.
Era um fim de tarde comum em Manaus, aquele calor grudando na pele, o centro da cidade pulsando gente de um lado pro outro, buzinas, ambulantes, o cheiro doce da Glacial misturado com fumaça de escapamento. Eu sempre voltava pra casa com um amigo da escola, era nosso ritual de segurança não declarada. Mas naquele dia, a gente se desencontrou.
Fui pra uma parada que eu evitava. Sempre cheia, sempre caótica. Eu gostava mesmo era da tranquilidade da frente do Colégio Militar. Mas... a solidão tem dessas: a gente escolhe o que parece mais seguro naquele momento.
Então veio ele. O tipo de abordagem que parece conversa fiada, mas tem cheiro de perigo. Dizendo que me conhecia, que me via em lugares que eu realmente frequentava. Isso me gelou. Fingi não ouvir. Torci pra que o ônibus viesse logo, como quem reza em silêncio.
Veio. Entrei. Alívio... por cinco segundos.
Quando levantei os olhos, ele estava lá dentro também. Meu coração disparou. Eu era só uma menina de farda, mochila nas costas e medo acumulado.
Pensei rápido: não posso descer na minha parada de sempre. Mudei o percurso, desci antes. Ele desceu também. Me seguiu. Caminhou atrás de mim como uma sombra ruim.
Minha salvação foi uma drogaria, dessas de bairro. Entrei sem olhar pra trás e falei pro atendente, com a voz trêmula, mas decidida:
"Moço, tem um homem me seguindo desde o Centro."
Ele acreditou em mim. Me acolheu. Me deu abrigo. Ficamos de olho. E quando o perigo foi embora, ele fez mais: me deixou perto de casa.
Naquele dia, eu aprendi que coragem não é ausência de medo. É seguir andando, mesmo tremendo. Mesmo querendo chorar.
E que, às vezes, os livramentos vêm na forma de um balconista de farmácia com olhar atento.
Jackeline Monteiro
Enviado por Jackeline Monteiro em 16/06/2025