Jackeline Monteiro
Aglomeração Poética | Um porre de poesia para acalmar a alma
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Textos
Entre a Parada e a Farmácia
O calor de Manaus parecia ainda mais sufocante naquela tarde. O uniforme colava nas costas, o asfalto vibrava e o movimento no Centro era o de sempre: gente demais, espaço de menos.
Ela tinha 15 anos e carregava no peito uma coleção de medos que não cabiam na idade. A companhia do amigo naquele trajeto da escola sempre servia de escudo, mas aquele dia foi diferente. O desencontro virou o primeiro sinal de que algo estava por vir.
A parada em frente à sorveteria Glacial era lotada, barulhenta, mas ela preferiu encarar aquilo a esperar sozinha em outro canto mais isolado. Melhor o tumulto que a solidão.
O rapaz chegou sorrateiro, como quem não quer nada. Começou com as perguntas típicas de quem finge coincidência:
— "Acho que já te vi em tal lugar..."
— "Você não é daquela rua perto do colégio?"
O que gelou seu estômago foi o fato de que os lugares que ele citava... ela realmente frequentava.
A vontade era correr dali. Mas onde? O ônibus chegou, lotado como sempre. Ela entrou no meio da multidão, respirando aliviada, só por ter conseguido sair dali.
Mal sabia que o alívio duraria pouco.
Entre um empurrão e outro no corredor apertado, ela levantou os olhos. Lá estava ele. No mesmo ônibus. Os olhares se cruzaram por um segundo, e ela entendeu: ele estava atrás dela.
Pensou rápido. Traçou um plano apressado. Desceu antes da parada habitual. Ele desceu também. O medo virou pânico. As pernas trêmulas mal obedeciam, mas ela continuou andando, fingindo uma calma que não tinha.
Viu a drogaria. Entrou. Caminhou direto até o balcão.
— "Moço... tem um homem me seguindo. Desde o Centro..."
O atendente, que até então organizava prateleiras de shampoo, largou tudo. Olhou pela porta de vidro, viu o sujeito rondando do lado de fora.
— "Fica aqui. Se ele não for embora, a gente chama a polícia."
Os minutos se arrastaram, mas enfim, o homem sumiu. Talvez percebendo que ali ela não estava mais sozinha.
O atendente pegou as chaves da moto.
— "Vou te deixar perto da tua casa. Não quero que aconteça nada no caminho."
Ela subiu na garupa, abraçou a mochila com força e só então deixou as lágrimas escaparem.
Naquele dia, ela foi salva por um estranho com coração de herói.
E por uma coragem que ela nem sabia que tinha.
Jackeline Monteiro
Enviado por Jackeline Monteiro em 15/06/2025
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